Nova Scola Bué Económica e o debate que ultrapassa qualquer tradução

ACADÉMICO

Lucas Baía - FDUNL

4/16/20265 min read

No dia 23 de março, estive à conversa com o docente Jorge Bacelar Gouveia – docente catedrático da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, frequentemente associado a esta polémica devido à sua posição pública sobre o tema –, e com a aluna Diana Serra – que frequenta a dita Nova SBE –, no contexto de uma mudança administrativa que tem suscitado diversos debates no seio da Universidade Nova de Lisboa.

Desde sempre que os nomes não são apenas nomes, mas símbolos daquilo que pretendem nomear. Está na natureza humana valorizar as primeiras impressões. E, na polémica que aqui destrinchamos, a discussão não é somente sobre o nome de uma faculdade; passa a ser, inevitavelmente, sobre internacionalização, para uns, ou sobre perda cultural, para outros.

A onda crescente de exposição mediática em torno da mudança de designação da dita Nova School of Business and Economics – ou Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, para os mais próximos – fez com que surgissem cada vez mais hipóteses e sub-debates quanto ao cerne da questão. Apesar de, numa abordagem inicial, se mostrar um assunto de mero cumprimento das normas, escapou ao campo jurídico, sangrando para as piscinas da identidade, da cultura e da política.

Exploramos primeiro a perspetiva de Jorge Bacelar Gouveia que, abordando a questão numa perspetiva jurídica, foi direto ao ponto: “Num Estado de Direito nós temos que aplicar a lei que nos rege. E a lei é clara”.

Segundo o professor, o Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior determina que as instituições públicas devem ter designação em português, podendo acrescentar uma designação em língua estrangeira. O problema, defende, reside no facto de a Nova SBE utilizar apenas a designação inglesa, sem referência equivalente em português, o que, na sua perspetiva, constitui uma irregularidade. “Por aquilo que eu tenho visto, na Faculdade de Economia da Universidade Nova […] não há qualquer alusão sequer à designação em português. E, portanto, isso é ilegal”.

A questão, contudo, não se esgota na legalidade: pelo contrário. Para Jorge Bacelar Gouveia, esta discussão reflete uma transformação mais profunda no ensino superior português. “Mas não é só uma questão de cumprir a lei […] é uma questão de identidade também de uma instituição que é portuguesa e é pública”.

A internacionalização surge, inevitavelmente, como o principal argumento em defesa da manutenção do nome em inglês. Ainda assim, o professor contesta esta ideia. “A internacionalização é uma coisa substancial, substantiva, não é pelo nome. […] Não é por o facto de a Nova SBE também se chamar Faculdade de Economia que ela vai deixar de ser internacional.

Entre tradição e competitividade, o professor mostra incerteza acerca de onde descansa verdadeiramente o coração da nossa instituição. E, com esta incerteza, surgem também preocupações mais amplas, mas a ela intrinsecamente relacionadas. O aumento do número de estudantes estrangeiros, a presença crescente de docentes internacionais, o ensino predominantemente em inglês e – aos olhos do professor, a ofensa mais grave – a não exigência de proficiência em português para poder ensinar nas unidades orgânicas da Nova apontam para uma transformação mais profunda. “Começamos a ver estudantes estrangeiros, às vezes, em maior número do que os próprios estudantes portugueses […] e eu começo a perguntar se vale a pena ter uma universidade pública paga pelo dinheiro dos portugueses para estar a dar aulas a estrangeiros.”O docente reafirma, não obstante, que não se trata, na sua ótica, de um nacionalismo desmedido.

Para além disso, não podemos ignorar aquilo que se move nas entrelinhas: os jogos de poder que, silenciosamente, moldam decisões desta natureza. O próprio professor deixa a dúvida no ar: “Será que esta questão […] tem por trás de si uma luta pelo poder […]?” A referência a um candidato associado à Faculdade de Economia derrotado nas eleições para reitor, bem como a contestação subsequente ao despacho, levanta possibilidades desconfortáveis para a imagem pública da Universidade Nova.

E, como em qualquer conflito que extravasa o imediato, as consequências projetam-se para lá do presente. O professor admite a possibilidade de ruptura — “a porta da rua é a serventia da casa” — sugerindo até a criação de instituições privadas por quem não se reveja nas regras da universidade pública. Paralelamente, propõe soluções estruturais: a limitação percentual de cursos lecionados em língua estrangeira, quotas para docentes e estudantes nacionais, e até uma intervenção legislativa que discipline o uso do português no ensino superior. Medidas que, sendo vistas por uns como proteção, poderão ser interpretadas por outros como restrição das liberdades.

As palavras são fortes. E, precisamente por isso, geram reação

Do outro lado do debate, surge o testemunho de Diana Serra, 18 anos, aluna do primeiro ano da licenciatura em gestão da Nova SBE – ou, como a própria diria, First Year Bachelor in Management –, que oferece uma perspetiva distinta, construída a partir da experiência quotidiana dentro da instituição. Para a estudante, o nome em inglês é parte integrante da identidade da faculdade, sem o qual se tornaria algo distinto, desconhecido, fora dos moldes que a própria quis construir para si e para as pessoas que a frequentam.

Segundo Diana, “a faculdade tem uma imagem de ser aberta ao exterior e de ter um modelo diferente, criativo e inovador, e o nome em inglês faz com que a faculdade se destaque”. A estudante acrescenta ainda que “ter o nome da faculdade em inglês dá um destaque internacional aos próprios estudantes”, sobretudo num contexto em que a realidade académica, e não só, é já profundamente internacionalizada, tanto por ligação à área da economia como por uma maior ambição na perspectivação de futuros empregos.

A descrição que faz da faculdade reforça essa percepção. “Temos as aulas todas em inglês, recebemos muita gente do estrangeiro, e o nome em inglês cria uma proximidade a esses alunos.” Assim sendo, a direção anglofónica – atreveria-me a dizer anglófila – para que marcham surge neste caso, como reflexo da própria experiência académica. Professores de várias nacionalidades, eventos empresariais frequentes, um ambiente descrito como “muito giro” e um modelo de ensino que a própria caracteriza sem restrições como “americanizado”.

Talvez seja precisamente para aqui que devemos apontar os nossos holofotes. Será a decisão da Nova SBE uma aposta epitomada de ousadia, desbravando caminho para um novo tipo de organização institucional que, embora fortemente contestada, possa trazer mais benefícios do que realmente se pensa? Ficará conhecida pelo desafio a uma realidade já consolidada, ou por uma transformação excessiva, uma possível perda de identidade?

Diana Serra sublinha ainda que “o nome em português não reflete bem o que verdadeiramente se passa na instituição nem o mérito internacional que tem”. Não se trata, diz, de melhor ou pior, mas de diferença. “Colocar o nome em português torna-a só em mais uma faculdade de economia”.

É um debate, caros leitores, que dificilmente cessará com uma simples mudança administrativa. A questão permanece, não só relativa às universidades e faculdades pelo país fora, mas pelas instituições da sociedade civil no geral. A globalização é atual, todos o sabemos. Mas até que ponto é que podemos deixá-la penetrar a realidade nacional?

As respostas não são simples. Talvez nunca o sejam.